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Inquietação e Mudança - Entrevista com o
empreendedor social Rui Mesquita
Inquietação e Mudança
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O Nordeste é uma
região bonita e desafiadora, com grande
tradição de iniciativas e movimentos de
participação. A inquietação pode e deve levar
a mudanças. A inquietação é mais natural nos
jovens. Por isso, Rui Mesquita, cearense
radicado há quase 10 anos em Pernambuco,
ex-militante estudantil, formado em
Administração, criou junto com outros jovens,
a Academia de Desenvolvimento Social – uma
organização que valoriza a indignação e
fortalece a capacidade de ação social de
jovens do Grande Recife.Para possibilitar aos
internautas um olhar nordestino sobre
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o Nordeste, um
olhar jovem sobre a questão da
juventude e um
olhar de militante
quase veterano sobre
a questão social, sem nenhuma mediação, o Portal
do Voluntário entrevistou em Recife o empreendedor
social Rui Mesquita. Leia e confira.
Portal do Voluntário -
O enunciado da missão
da Academia de Desenvolvimento Social é
diferenciado: “Canalizar inquietações humanas para
gerar mudanças sociais”. O que isto quer dizer?
Rui Mesquita - Acreditamos
muito que as mudanças sociais não acontecem à toa,
mas sim porque alguém, geralmente em grupo,
idealiza e viabiliza espaços e ações, movimentos e
organizações, propostas e políticas para
influenciar o nosso dia-a-dia e provocar mudanças
na sociedade, a partir de suas inquietações frente
ao mundo e à sociedade. Acreditamos que é o
sentimento de inquietação que provoca ações
empreendedoras no campo da mudança social. Daí a
nossa missão expressar essa crença. Também
acreditamos na capacidade inata de todos os seres
humanos de se inquietarem e a partir daí agirem.
Porém reconhecemos que é na juventude onde tais
sentimentos de inquietação se expressam com mais
intensidade e naturalidade. Isso faz com que a
Academia, que é uma organização formada por um
grupo de jovens militantes dos movimentos sociais
juvenis, esteja também naturalmente voltada para
apoiar outros grupos juvenis a provocar mudanças
sociais, a partir das suas inquietações.
Portal do Voluntário - O que
é e o que faz a Academia? Como começou? Quais são
suas principais atividades?
Rui Mesquita - Tudo começa
numa série de inquietações de dois jovens
estudantes, um cearense (esse sou eu) e outro
piauiense (o Romel Pinheiro), que por alguns anos
e por diferentes caminhos tiveram grande
militância no movimento estudantil brasileiro, a
partir de Pernambuco, e justamente por isso
ganharam um novo horizonte do panorama social do
Brasil e da juventude, e seus desafios. As
primeiras discussões sobre a Academia acontecem
entre 1998 e 1999, no Recife, sobre como
poderíamos institucionalizar uma iniciativa que
pudesse estimular o desenvolvimento social,
através da participação de novos protagonistas, de
jovens, como nós mesmos. Foi aí que, após alguns
meses de discussão, veio a idéia de criarmos uma
ONG, a Academia de Desenvolvimento Social.
Percebemos na época que teríamos que começar
pequenos e devagar. Montamos então uma estratégia
de intervenção para a Academia, de suporte a
grupos juvenis para provocarem mudanças na
sociedade a partir dos problemas que mais os
inquietam. Essa estratégia era baseada em três
grandes pilares: Informação, Formação e
Intervenção. Começamos criando projetos para
provocar a circulação e a discussão de informações
sobre os movimentos sociais, políticas públicas e
os principais desafios do campo social, para em
seguida iniciarmos um programa de formação
instrumental em gestão social, e por fim
iniciarmos um programa de intervenção, que
possibilitasse apoio direto a grupo juvenis com
propostas de intervenção social. Primeiramente
iniciamos alguns projetos que não precisassem de
recursos que não dispúnhamos, como estrutura
física e recursos financeiros.
Atualmente a
Academia leva a cabo cinco projetos. Dentro do
pilar de informação são três: o nosso website
(www.academiasocial.org.br), o Clipping Terceiro
Setor e o Ponto de Encontro. No pilar de formação
realizamos periodicamente vários cursos de gestão
social (planejamento de projetos, marketing
social, captação de recursos, dentre outros). E no
pilar de intervenção, a nossa mais recente e mais
desafiadora iniciativa, a Incubadora Social para
Ação Jovem.
Portal
do Voluntário - Outra
característica que chama a atenção é o foco no
empreendedorismo social e não em boas ações, como
é mais freqüente. Por que empreendedorismo?
Rui Mesquita -
Primeiramente costumo sempre ressaltar que essa
palavra, empreendedorismo, geralmente é associada
àquelas pessoas que empreendem no campo dos
negócios, das empresas. Mas esta seria no mínimo
uma forma pobre de se aplicar esse termo. Na
língua francesa, onde o termo "empreendedor"
surgiu, por volta dos séculos XVII e XVIII,
significa: aquele que se compromete com um
trabalho ou uma atividade específica e
significante. Desde então o termo tem sido
basicamente utilizado através de um olhar
meramente economicista, com forte viés de uso para
a exploração das oportunidades de mercado. O seu
uso no campo social pode ser novo, mas o fenômeno
não. Existem muitos empreendedores sociais na
nossa história, que se comprometeram com muitos
trabalhos e atividades significantes para a nossa
sociedade e que criaram muitas das organizações e
iniciativas sociais que hoje temos como
referência. São empreendedores com uma missão
social, que têm o papel de agentes de mudanças na
sociedade, motivados e impulsionados não por uma
oportunidade ou por uma chance de fazer uma boa
ação, mas sim por uma inquietação interna e um bom
senso de liderança que os levam inclusive a
mobilizar outras pessoas em prol de uma causa
comum, central e explícita. Por isso o nosso foco
e a nossa aposta no empreendedorismo social como
uma grande alavanca impulsionadora do
desenvolvimento. Mas não basta o empreendedorismo
sozinho. Os empreendedores sociais têm que se
conhecer e reconhecer, para poderem atuar em
conjunto, em rede, unindo cada vez mais esforços e
forças para a mudança social. Este foco também não
deixa de ser um reflexo da nossa própria atuação
na Academia, que consideramos possuir uma boa
pitada de empreendedorismo social.
Portal do Voluntário -
É verdade que a organização foi criada e é
dirigida por jovens recém-formados? Que diferença
isso faz? Vocês sentem reservas ou resistências
por causa disso?
Rui Mesquita - Sim, a
iniciativa partiu de dois jovens, eu e o Romel,
entre 1998 e 1999 quando ainda cursávamos o último
ano de graduação em Administração na Universidade
de Pernambuco (UPE). Não queríamos simplesmente
virar “administradores” e trabalhar em alguma
empresa privada. Não que haja algo de errado
nisso, muito pelo contrário, mas havia algo que
nos fazia caminhar em outra direção, usando a
bagagem instrumental e teórica do curso de
Administração munida de uma outra lógica e de
outros valores. Na época eu tinha 22 anos.
Atualmente tenho 26. Ao longo do tempo outros
jovens ingressaram na Academia. Hoje somos cinco.
O mais velho tem 31 anos e o mais novo 25. Estamos
“crescendo”, é verdade, mais carregamos no nosso
bojo a essência de sermos uma organização juvenil.
E naturalmente algumas resistências ocorreram sim,
devido ao choque de alguns pela nossa idade, mas
sempre foi algo que conseguimos reverter com certa
tranqüilidade. Creio que ainda existe muita gente
que não está acostumada a trabalhar com jovens de
igual para igual, o que é natural por uma série de
questões históricas, mas que aos poucos a
tendência está se revertendo.
Portal do Voluntário
- Qual foi o papel da Federação Nacional dos
Estudantes de Administração (FENEAD) na sua
formação como empreendedor social e na criação da
Academia de Desenvolvimento Social? A FENEAD é
parceira da Academia?
Rui Mesquita - A FENEAD foi
uma grande escola, sem sombra de dúvida! Devo
muito das minhas experiências e valores a ela e
aos que dela fizeram parte junto comigo. Meu
primeiro contato com a FENEAD foi em 1995. Nela
exerci várias funções, como a de Diretor Regional
para os estados de Pernambuco e Alagoas, entre
1996 e 1997, e o de Presidente da Diretoria
Nacional, entre 1997 e 1998. Também participei da
criação e organização do I EREAD Nordeste
(Encontro Regional dos Estudantes de Administração
do Nordeste), ocorrido em maio de 1997 no Recife.
A FENEAD surgiu em janeiro de 1995, levantando a
bandeira de uma “nova cara para o movimento
estudantil”, sem nenhum vínculo partidário e mais
antenado com as questões sociais do país. Em 1996
surgiu o Prêmio FENEAD, hoje uma grande “ação
nacional de estudantes universitários para
soluções sociais”. Em seguida surgiram algumas
outras iniciativas mais propositivas, como, por
exemplo, o Trote Cidadão, que fizeram da FENEAD
uma nova proposta de ação civil estudantil, muito
mais próxima dos movimentos sociais e da sociedade
civil como um todo. Uma forma diferente e
inovadora de fazer política, sem o envolvimento
dos partidos políticos. Atualmente a Academia é
parceira do Prêmio FENEAD, um dos projetos da
Federação. Além de outros tipos de trocas e
apoios, juntos organizamos um projeto em comum, o
Ponto de Encontro por um Novo Mundo, que ocorre
mensalmente no Recife, também em parceria com a
UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).
Portal do Voluntário - Como
está hoje a FENEAD? Ela é uma organização
estudantil política? Quais são suas principais
atividades?
Rui Mesquita - Meu contato
tem sido mais forte com o Prêmio FENEAD, uma vez
que sua coordenação nacional 2002/2003 está
sediada no Recife, e não com a FENEAD como um
todo, que tem sua atual sede em São Paulo. Por
isso não tenho tanta segurança para falar de como
está a Federação como um todo atualmente, mas de
certo ela sempre foi e continuará sendo uma
organização política, porém não sei se atualmente
está tendo relações partidárias ou de
“politicagem”. Sei que nenhuma dessas duas coisas
ocorre com o Prêmio FENEAD. Sei também que na
minha época de FENEAD sua diferença estava baseada
justamente em fazer política social, sem fazer
política partidária. Sei também que muita gente
boa saiu da FENEAD daquela época, que hoje se
destacam nas suas áreas de militância social,
acadêmica e/ou governamental, como por exemplo o
Edson Sadao (SP), a Paulinha Schomer (RS/BA), o
Alexandre Nicolini (RJ/BA), o Edgilson Tavares
(PB/DF/SP), a Karla Bertocco (SP), a Patrícia
Kanashiro (SP), o Evandro Biancarelli (SP), o
Euler Darlan (MG) e tantos outros grandes e bons
amigos feitos…
Portal do Voluntário - Chama
a atenção no site a capacidade de articulação e
trabalho em parceria da Academia, tanto com o
chamado Terceiro Setor como com empresas e órgãos
públicos. Vocês decididamente não estão no bloco
do eu sozinho. Esta atitude explica o sucesso
obtido até agora?
Rui Mesquita - Não sei se
explica completamente, mas sem dúvida contribui e
muito. Lembro-me como se fosse hoje que assim que
terminamos de fazer a versão 1.0 do primeiro
projeto da Academia, no final de 1998, o
publicamos automaticamente na Internet (em uma
dessas hospedagens gratuitas de site), e o
divulgamos para a maior quantidade de pessoas
possíveis com as quais mantínhamos contatos. E
recebemos muitos e bons comentários sobre a idéia
original, sem ligar para alguns que insistiam em
dizer que se realmente continuássemos divulgando o
projeto dessa maneira, pela Internet, pessoas mal
intencionadas poderiam simplesmente copiar a idéia
e pô-la em prática na nossa frente. Mas que bom se
outras Academia tivessem surgido também. E o que
ocorreu é que algumas pessoas se identificaram
conosco e com nossa causa e essa reação em cadeia
faz com que hoje tenhamos tantos e bons parceiros.
Temos a consciência de que sozinhos não iremos a
lugar nenhum. Sobre sermos um sucesso, penso que
muitas coisas boas estão sendo alcançadas, mas
também penso que existem muitas pedras no caminho
e muitos tropeços também, além de muitas mancadas
e muitos erros de nossa parte, que procuramos
sempre observar, sentir e com eles aprender,
continuando a seguir em frente. É um aprendizado
contínuo e temos total consciência de que ainda há
muito para ser feito. Estamos apenas no começo de
uma longa, difícil, mas gostosa, caminhada.
Portal do Voluntário - A
Academia de Desenvolvimento Social, em meio a um
setor que reclama da falta de investidores,
conseguiu parcerias como o SEBRAE e a Fundação
Kellogg. Como isto foi possível a uma organização
nova, dirigida por jovens, focada no
fortalecimento de iniciativas e organizações de
jovens? Qual foi caminho percorrido até este
sucesso?
Rui Mesquita - Na verdade não
existe nenhuma receita de bolo, mas sim uma grande
confluência de missões e objetivos, regados com
uma boa dose de confiança mútua, capacidade
institucional e risco. A Fundação Kellogg já
mantinha certo contato com a Academia fazia algum
tempo, desde 2000, no início por algumas
coincidências, depois por afinidades de causa e
missão, especialmente dizendo respeito às questões
juvenis. O SEBRAE também se aproxima muito do
nosso trabalho por sua visão empreendedora, e com
a Academia levantando essa bandeira do
empreendedorismo social jovem, então nada mais
natural foi nossa aproximação, em 2002. Ambas
instituições são muito importantes para a
Academia, especialmente para a Incubadora Social
para Ação Jovem, nosso principal programa. A
Fundação Kellogg e o SEBRAE estão literalmente
incubando a Incubadora Social.
Portal do Voluntário - Como
está o Terceiro Setor no Nordeste? Na área social,
a região é prioridade de investidores sociais
nacionais e estrangeiros, de organizações de todos
os setores. No entanto, pouco se conhece dos
avanços da cidadania e do protagonismo da
sociedade no Nordeste. Por que?
Rui Mesquita - O Nordeste é,
sem sombra de dúvidas, uma grande, bela e
desafiadora região, que infelizmente ainda possui
muitos mitos, imagens e estereótipos do resto do
país. E infelizmente não é a única região do nosso
país com esse tipo de problema, o Norte, e de
alguma forma também parte do Centro-Oeste, sofre
do mesmo problema. Diria também que não existe
apenas um único Nordeste, como muitos que não são
daqui costumeiramente pensam, mas sim vários
Nordestes, com sotaques diferentes, realidades
geográficas, políticas, econômicas e sociais muito
diferenciadas. Eu mesmo sou cearense, e há mais de
nove anos vivo em Pernambuco, o que me faz
conhecer um pouquinho esse pedaço do país. Há uma
grande diferença entre as capitais estaduais e os
demais municípios do interior, por exemplo, tanto
na realidade sócio-econômica como na realidade
cultural. Há também uma grande diferença entre as
cinco grandes regiões internas do Nordeste: o Meio
Norte, o Litoral Norte, o Semi-Árido, o Agreste e
a Zona da Mata. E ainda são nove estados, cada um
com suas particularidades, potenciais e problemas.
E dentre estes nove estados uma coisa é falar em
Ceará, Pernambuco e Bahia, os três “ricos” da
região, outra coisa é falar em Maranhão, Piauí,
Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e Sergipe. O
movimento social sempre foi muito forte por aqui.
Há uma forte tradição associativista e de
participação política nas maiores cidades,
especialmente em Recife, Salvador e Fortaleza,
onde muitas ONGs surgiram ainda no período da
ditadura militar. Havia um grande ativismo
político de resistência à ditadura no Nordeste, o
que fez com que muitos nordestinos fossem exilados
no exterior, e alguns deles, ao retornar ao país
criaram muitas organizações sociais. Quem nunca
ouviu falar do protagonismo de Josué de Castro (e
a Geografia da Fome), de Paulo Freire (e a
Pedagogia do Oprimido), de Luís Freire, Dom Helder
Câmara e Tânia Bacelar? Isso para não falar em
tantos outros Joãos, Marias e Severinos da nossa
região que fazem nossa história se erguer.
Infelizmente os meios de comunicação brasileiros,
e nordestinos, exaltam muito mais o centro-sul do
país em detrimento das demais regiões, o que cria
tudo um imaginário popular e um grande
estereótipo, que nem sempre é sadio e verdadeiro,
das diferentes regiões do país. Talvez o que falte
para se conhecer melhor os avanços e o
protagonismo do Nordeste é deixar de lado toda e
qualquer imagem de terceiros sobre a região e vir
até aqui para construir sua própria imagem.
Existem grandes iniciativas de desenvolvimento
local no interior da região sendo levadas a cabo
no momento, no Baixo Sul da Bahia, na região de
Xingó (SE/AL/BA/PE), na Bacia de Glória do Goitá
(PE), no Cariri Paraibano, na Zona Oeste de Natal
(RN), no Médio Jaguaribe (CE), no Litoral Leste
Cearense, na Baixada Maranhense (MA) e em tantos
outros locais. Existem também várias iniciativas
de economia solidária na região, de micro-crédito,
de construção de cisternas etc. No início de
outubro de 2003 vai acontecer em Natal o I Fórum
Social Potiguar, desdobramento do Fórum Social
Mundial. E já se escuta até mesmo falar na criação
de um Fórum Social Nordestino. Enfim, como se diz
por aqui: no Nordeste, tudo o que se planta dá.
Mas ainda temos um longo processo pela frente de
superação da pobreza, da miséria, e de alguns
“currais políticos” que ainda teimam em persistir
em alguns locais da região. Além do desafio de
criarmos uma base institucional mais sólida na
região.
Portal
do Voluntário - A juventude, como
preocupação e público, esteve sempre presente na
sua carreira como empreendedor social. Por quê?
Rui Mesquita - Creio que de
alguma maneira sim, só que talvez no início de
forma nem tanto consciente. Tenho atualmente 26
anos, e há cerca de nove ou dez milito de
diferente formas no movimento social juvenil.
Apesar de estar crescendo, ainda me considero
muito jovem. E por ver muitos amigos também
militantes sociais e jovens, a iniciarem grupos,
projetos e iniciativas diversas, veio crescendo em
mim uma inquietação de passar a trabalhar
diretamente apoiando os movimentos de juventude,
com formas alternativas de apoio em relação aos
apoios que já existem.
Portal
do Voluntário - Como está hoje, na
sua visão, a juventude brasileira? O que ela
oferece, o que pede?
Rui Mesquita - Não tenho lá
tanta representatividade para falar em nome da
juventude brasileira, muito menos para tentar
defini-la, mas acho que existem alguns pontos, ou
provocações, que gostaria de trazer. Há muitos
anos existe uma grande luta para garantir direitos
e políticas públicas para a juventude em todo o
mundo. Poderia dizer que em relação a outros
países o Brasil ainda está muito atrasado neste
assunto. Muitas vezes se confunde jovens com
estudantes no nosso país, talvez porque a política
de juventude existente no Brasil era feita pela e
para a classe média, e não para os excluídos,
exatamente pelo fato de ter sido a classe média
quem protagonizou a política no Brasil ao longo do
século XX. O que fez também que a classe média
estivesse sempre à frente do movimento juvenil
organizado, como por exemplo, o movimento
estudantil. Também se confunde muito jovem com
criança e adolescente. Há mais de dez anos
conseguimos um avanço tremendo no campo das
políticas públicas e garantia dos diretos para a
infância e a adolescência, com a aprovação do ECA
(Estatuto da Criança e do Adolescente). Mas hoje o
que acontece é que após os 18 anos as pessoas
perdem toda a garantia que tinham com o ECA, por
exemplo, e nenhum tipo de política mais existe
para jovens maiores de idade. Por exemplo, nessa
faixa etária a maioria absoluta dos jovens não
consegue se manter estudando, pois têm que
ingressar muito cedo no mundo do trabalho, para
garantir sua sobrevivência, e mesmo que assim não
fosse, não haveria vagas suficientes para toda
essa massa juvenil nas universidades e em cursos
técnicos, e mesmo assim somente aqueles poucos que
conseguem se manter nos estudos têm garantidos
direitos como de meia entrada em eventos culturais
e cinemas e meia passagem nos transportes urbanos,
o que é de alguma forma um contradição. E ainda há
quem diga que a juventude possui excesso de
direitos e de proteção, especialmente por parte
daqueles que vêem os jovens como problema, e até
mesmo como delinqüentes, e por isso, por exemplo,
trazem a tona discussões como a redução da
maioridade penal. Outra questão é sobre algo que
parece ter virado moda atualmente, o protagonismo
juvenil. Seria o protagonismo juvenil um fim em si
mesmo? Se não, o que vem depois? E como criar e
manter programas de apoio a jovens já considerados
protagonistas, geralmente (mas não
necessariamente) maiores de 18 anos, para que não
virarem, por exemplo, "empacotadores de
supermercados"? O jovem deve ser considerado como
um sujeito, e a juventude não deve ser considerada
apenas como uma fase de transição entre a infância
e a fase adulta. O debate sobre jovens como
sujeitos de direito tem sido insuficiente. Não
existe uma só infância e uma só juventude, mas sim
infâncias e juventudes. Os setores rurais e
urbanos excluídos são os que mais sofrem.
Portal
do Voluntário - Neste contexto,
qual a importância da Incubadora Social para Ação
Jovem, da Academia? Como ela está agora?
Rui Mesquita - A Incubadora
Social é um programa que veio justamente como um
contraponto para alguns desses desafios
enfrentados por parte da juventude, principalmente
por grupos de jovens que já alcançaram a
maioridade e que tenham propostas concretas de
intervenção na sociedade, ou seja, grupos de
jovens empreendedores sociais. O apoio que a
Incubadora Social é de justamente trabalhar com o
que pode vir após o protagonismo juvenil, como por
exemplo, o empreendedorismo juvenil. Este ano de
2003 está sendo o primeiro ano desse programa, que
ainda é um piloto. São cerca de 15 grupos juvenis
incubados atualmente aqui conosco, todos da Região
Metropolitana do Recife. A Incubadora Social para
Ação Jovem visa apoiar jovens empreendedores
sociais que buscam transformar a sociedade. Em
janeiro de 2003 foram incubados os primeiros 16
projetos neste sentido. Cada um deles com um
projeto ou social, ou cultural ou ambiental. A
incubação completa dos projetos dura até três
anos, então neste momento eles estão ainda em seu
primeiro ano, buscando ainda consolidar seus
grupos, sua missão e suas estratégias de
intervenção. Neste modelo de incubação, grupos
juvenis têm a chance de iniciar ou expandir suas
propostas de intervenção social, cultural ou
ambiental construídas a partir de uma base de
legitimidade com o público alvo, e que não tenham
caráter competitivo ou de fins lucrativos. O
suporte oferecido a estes grupos vai desde um
escritório completamente equipado para uso, por
tempo determinado e compartilhado, do projeto, até
um sistema de apadrinhamento, que envolve
assessoria, acompanhamento e avaliação, passando
capacitações em gestão social e estímulo à
formação de rede. Tudo direcionado para que os
projetos ou organizações incubados possam
canalizar seus esforços na busca de provocar
ciclos de mudanças sociais locais, se possível
integrados numa proposta maior de desenvolvimento
local sustentável, como uma verdadeira rede
multidisciplinar. Mas a verdade é que tudo ainda
está muito embrionário. Inclusive a discussão
sobre o conceito de incubadora social. Como dito
inicialmente, o próprio termo pode ter muitas e
distintas interpretações. E talvez o melhor a ser
feito no momento seja uma ampla e vasta discussão
sobre o conceito, a partir de diferentes atores da
sociedade, como as próprias incubadoras já
existentes (independente da sua natureza), as ONGs,
os movimentos sociais, as universidades, os
governos e outros, pois elas podem vir a ser um
verdadeiro instrumento impulsor e catalisador do
desenvolvimento social, tanto no Brasil como em
outros países.
Portal do Voluntário -
Como ex-coordenador do Centro de Voluntários do
Recife, qual sua visão do voluntariado em
Pernambuco e no Nordeste? Qual foi o impacto do
Ano Internacional do Voluntário na região? Qual o
conceito e qual a prática de trabalho voluntário
mais comuns na cultura do Nordeste? Como está o
diálogo entre os voluntários ditos modernos (o
pessoal das grandes causas) e os voluntários ditos
tradicionais (o pessoal da assistência social)?
Rui Mesquita - Minha visão de
voluntariado é bastante ampla. A militância
social, por exemplo, é um grande exemplo de
voluntariado, na minha opinião. O empreendedorismo
social é outra. Acreditar numa causa e não ver
obstáculos para persegui-la é sem dúvida uma
grande ação voluntária. Mas ainda assim há muitas
pessoas que por causa de toda a sensibilização
provocada pelos meios de comunicação em massa
acabam também se tornando voluntárias, mesmo sem
terem necessariamente uma causa maior que as
movam. Isso às vezes chega a causar alguns
problemas, não só para as organizações que recebem
os voluntários, mas principalmente para o público
que é muitas vezes diretamente atendido por esses
voluntários. De qualquer forma é sempre válida a
iniciativa e a ação voluntária, até mesmo porque
através dela muitas pessoas se encontram na vida.
O Ano Internacional do Voluntário teve grande
repercussão no Nordeste. Até mesmo um foguete
chegou a ser lançado do Centro de Lançamentos da
Barreira do Inferno, da Força Aérea Brasileira, no
Rio Grande do Norte, com mensagens para o espaço
de estímulo e apoio ao voluntariado. Muitas
empresas começaram também a praticar o chamado
voluntariado empresarial, o que estimulou a
responsabilidade social empresarial pelo Nordeste.
Mas ainda faltam muitos espaços de participação
social e política para a população em geral.
Várias práticas não governamentais e
governamentais, como, por exemplo, o orçamento
participativo, começam a criar em alguns
municípios do Nordeste um interesse maior nas
pessoas pelas questões coletivas e publicas. Isso
é muito importante e deve ser fomentado e
estimulado. Também se percebe uma crescente
participação juvenil voluntária em ações e causas
de interesse público, o que é muito interessante.
Para conhecer com mais detalhes a Academia de
Desenvolvimento Social e suas atividades, visite o
site
www.academiasocial.org.br
.
Fonte: Portaldovoluntario.org.br |
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