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TALITA BEDINELLI
da PrimaPagina
Uma organização
não-governamental do Rio de Janeiro vai
oferecer a crianças e jovens de rua, a partir
do início dos
Jogos Pan-Americanos 2007, um curso de
introdução à leitura e à escrita que dispensa
livros e apostilas. Com a ajuda de pedagogos,
a instituição desenvolveu um método que ensina
os alunos a formar palavras usando jogos de
computador.
Na metodologia, as consoantes e
vogais do teclado viram comandos do game.
É uma determinada letra que faz, por exemplo,
um personagem pular e ajuda o jogador a
avançar para a próxima fase do game.
Voltada para meninos e meninas
de 7 a 24 anos, a oficina faz parte de um
curso básico de informática que será oferecido
a pessoas pobres durante o Pan, que vai de 13
a 29 de julho. “O objetivo é que eles aprendam
a usar o computador e a internet, mas,
como muitos não sabem ler, é necessário esse
processo de alfabetização mínima”, afirma
Antônio Monteiro, um dos coordenadores da
Ex-Cola, ONG responsável pela capacitação.
A expectativa inicial é atender
30 alunos ao longo de seis meses (dez de cada
vez, em cursos de dois meses). No começo, eles
vão aprender a usar o mouse. “Temos um
joguinho que treina a coordenação motora. Os
meninos têm que posicionar uma lupa de forma
que um raio de sol seja refletido e atinja uma
formiguinha”, diz Monteiro.
Quando os meninos já estão
craques no uso do mouse, eles começam a
brincar com um novo jogo, que usa letras.
“Para fazer com que o personagem da
brincadeira pule, eles têm que apertar o A,
por exemplo. Assim, eles começam a reconhecer
as letras e, a partir daí, passam para jogos
em que têm que escrever algumas palavras para
mudar de fases”, descreve o coordenador.
Os alunos que avançarem mais,
conta Monteiro, vão aprender pesquisar
sites na internet. Os que
precisarem de mais tempo para aprender a
formar as palavras poderão continuar o
aprendizado depois dos dois meses, quando
começar uma nova turma. Como o atendimento é
individualizado, alunos de diferentes níveis
de alfabetização vão poder freqüentar uma
mesma sala de aula e fazer as atividades de
acordo com seus próprio ritmo. “Isso é uma
forma de sensibilizar os meninos que estão em
situação de rua. Não queremos substituir a
escola, mas estimular que eles voltem a
estudar”, diz Monteiro.
A Ex-Cola começou a trabalhar
com jovens e crianças moradores de rua em
1989, mas só em 1994 passou a existir como uma
ONG formalizada. Desde então, esse curso já
foi aplicado outras vezes, mas teve de ser
interrompido por falta de recursos. A entidade
manteve então um espaço para que os meninos
que freqüentavam o local pudessem acessar a
internet gratuitamente.
Para recomeçar a atividade, a
organização vai receber quase R$ 99,9 mil do
projeto
Medalha de Ouro, idealizado pelo PNUD e
pela SENASP (Secretaria Nacional de Segurança
Pública, ligada ao Ministério da Justiça). A
iniciativa vai distribuir R$ 2 milhões para
organizações não-governamentais e instituições
públicas que vão desenvolver 22 projetos
voltados a crianças de rua, entre julho e
novembro. A atividade é uma das ações que a
SENASP e o PNUD estão planejando para o Rio de
Janeiro por ocasião dos Jogos Pan-americanos.
Oficina de rádio
Com a verba, a Ex-Cola vai
comprar cinco computadores e estabilizadores,
uma impressora, cabos para a conexão de rede,
além de pagar o salário dos instrutores e
lanches para os alunos. O dinheiro vai servir
também para comprar equipamentos para uma
oficina de rádio que será oferecida para 40
jovens moradores de rua. Eles vão aprender a
produzir programas, fazer locução e operar
áudio.
A oficina de rádio também
costumava ser dada pela ONG, mas, assim como a
de alfabetização, teve de ser interrompida por
falta de verba. O instrutor das aulas será um
dos alunos da primeira turma do curso. Fábio
Campos de Oliveira começou a freqüentar a
instituição em 1993, aos 12 anos. “Quando
entrei no projeto, cheirava muita cola, não
ligava muito para isso. Fui preso três vezes
até os 18 anos, quando já estava na oficina.
Da última vez, percebi que era minha última
chance, que eu estava tendo uma oportunidade e
que não estava aproveitando”, conta Fábio, que
chegou a morar na rua quando criança e
adolescente.
“No começo, eu não sabia o que
falar na rádio. Não tinha o que falar, mas
falava mesmo assim”, brinca o instrutor. Em
2003, ele passou a coordenar a programação da
rádio comunitária Madame Satã, ligada à
Ex-Cola. “Eu quero tentar tirar o maior número
de jovens dessa situação [de morador de rua] e
fazer com que eles sigam o meu caminho. Para
isso, é preciso mais do que um curso, mas
muito amor, carinho e força de vontade,
inclusive dos jovens”, diz. “Isso tudo é um
processo, porque é muito fácil pegar uma
criança e tirar da rua, mas é muito mais
difícil tirar a rua de dentro da criança”,
completa.
Parte dos R$ 100 mil que a ONG
receberá do Medalha do Ouro será para comprar
um computador para a edição de áudio, mesa de
som, gravador digital portátil, microfone,
além de cabos e conectores para som, entre
outros aparelhos específicos para o curso. Com
isso, será possível dar continuidade ao
trabalho após o término projeto da SENASP e do
PNUD, Antônio Monteiro.
Rio de Janeiro, 29/06/2007
Fonte:
www.pnud.org.br/educacao |
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